Tive vontade de escrever sobre a monstruosidade que aconteceu numa prisão de Abaetetuba, no Pará, mas como
o assunto já estava estampado nos jornais do Brasil inteiro, resolvi deixar a questão de lado. Só que agora, simplesmente, não dá para ficar calada!
Como é possível, nos dias de hoje, ainda existir um machismo tão colossal que considere uma vítima de estupro a principal responsável pelo ato?
Como é possível permitir que uma menina de 16 anos seja presa numa cela com outros homens e nenhuma autoridade faça nada para tirá-la dali?
Como é possível o Pará ter um delegado-geral, chamado Raimundo Benassuly, que na falta de uma explicação convincente para o caso, se defende acusando a vítima de ter "alguma debilidade mental"?
Como é possível um bispo intervir no caso e ainda dizer que a família da jovem a abandonou e que o governo do estado fez o que podia?
Como é possível uma menina de 16 anos, abusada sexualmente durante 21 dias, pelo menos cinco vezes ao dia, conseguir recuperar sua integridade moral, psicológica e física?
Com tantos absurdos nesta história, um não dá para entender. Mesmo ela fosse cega, surda, muda e louca, ela não deveria estar presa numa cela masculina, JAMAIS.
Sei que a história dessa jovem é apenas a ponta de um iceberg que está em vias de desmoronar. Ela é um reflexo do descaso das autoridades brasileiras com o sistema carcerário e penitenciário brasileiro. E isso não é apenas exclusividade do estado do Pará.
Segundo o relatório entregue pela CNBB à Comissão dos Direitos Humanos da OEA, as mulheres sofrem abuso e violência dentro do sistema penitenciário em pelo menos cinco estados brasileiros: Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia e Mato Grosso do Sul.
Para o ministro da Justiça, Tarso Genro, "o episódio do Pará é fruto de um problema crônico da sociedade: a falta de investimento dos governos estaduais no sistema penitenciário". Segundo a assessoria do Ministério da Justiça, serão liberados R$ 89 milhões para o Pará.
Só espero que esta verba não saia dos cofres públicos e vá diretamente para contas fantasmas no exterior, ou acabem em construções monumentais só para inglês ver.
Sinceramente, é nestas horas que a gente pensa se um dia o Brasil ainda vai ter jeito.
Quando digo que ando muito pessimista quanto ao futuro desse país, não é à toa!